É verdade que o Anacleto nunca bateu bem das bolas, mas um dia ele inventou uma nova moda: estava viciado nas ondas das estações de wi-fi.
– Cumequié, Anacleto?
– É manero. Coloco a cabeça pertinho de uma estação transmissora e fico recebendo os sinais
diretamente na cachola. Outro dia sabia que tinha um e-mail pra mim, mesmo antes de olhar no computador.
– Ô, Anacleto, vai caçar o que fazer, vai.
O mais incrível é que era verdade, e aos poucos o Anacleto tornou-se mesmo capaz de decifrar as ondas wi-fi, especialmente quando se tratava de um e-mail. “É um sinal diferente, faz cócegas na nuca”, dizia. E do nada passou a soltar informações captadas da internet, embaraçando as pessoas à sua volta.
– Rita, calcinha vermelha não é uma boa ideia pro jantar com seu noivo.
– Fica tranquilo, Arthur. A sua ideia de slogan pra aquele produto está segura comigo.
– O chefe vai trocar de secretária semana que vem. Vou sentir sua falta, Maria.
Não que o Anacleto fizesse por mal, mas era incontrolável. “O que entra por um lado sai automaticamente pelo outro”, dizia. Na empresa, passou a ser figura indesejada. Ninguém mais abria e-mails quando ele estava por perto. Só que agora, sem saber o que fazer, seus colegas começaram a trabalhar de verdade, alguns pela primeira vez. E a produtividade da firma deu um salto incrível. Seu chefe sorria como um ex-BBB posando pra fotos.
Mas aí um dia o Anacleto deu tilt. Quer dizer, deu um tilt diferente, pois lembro que ele sempre teve alguns parafusos a menos. Uma dessas manhãs ele chegou ao trabalho ainda mais estranho, cantando Boemia igualzinho ao Nelson Gonçalves.
– Que novidade é essa, Anacleto?
– Acabou a fase wi-fi. Agora eu viciei em ondas de rádio. Capto que é uma beleza.
Depois disso, os colegas respiraram aliviados e, claro, a produtividade desabou. Tudo voltou ao normal na firma. Bem, quase ao normal. É que de vez em quando o Anacleto pega uma estação fora do ar e faz um barulho infernal. Mas aí é só torcer a orelha dele pra achar a sintonia correta.
Daniel Cariello é editor da revista Brazuca Online em Paris. De lá também escreve o blog Cheri A Paris. Ele se acha supernormal, igualzinho ao Anacleto.




